estúdio NEXT

29/junho/2011

“Jabez Stone, um fazendeiro de sucesso do século passado, que fizera um pacto com o demônio havia pouco tempo, desce as escadas correndo para buscar água quente para sua esposa e para o filho recém-nascido.

Uma camareira de uma beleza do outro mundo cumprimenta-o próximo à lareira. Uma música persistente, fascinante e assutadora soa pelo ar.”

Esta é parte de um clássico de 1941: O diabo e Daniel Webster, filme que resultou em um Oscar de melhor trilha sonora para o compositor Bernard Herrmann.

Naquela época, Herrmann reinventou a arte de compor uma música inovadora para as trilhas sonoras dos filmes. A música de Psicose é um dos exemplos disso. Alfred Hitchcock foi um parceiro na carreira de Herrmann, até que uma trilha recusada pôs fim à parceria e à amizade.

Outros diretores requisitaram as trilhas sempre surpreendentes de Bernard Herrmann. Entre eles, Ray Harryhausen, para quem Herrmann trabalhou em Mysterious Island and Jason And The Argonauts, o francês Francois Truffaut, que contratou Herrmann para compor as trilhas para Fahrenheit 451 and The Bride Wore Black. Brian DePalma e Martin Scorsese também figuram na lista de produtores e diretores que confiaram filmes ao talento de Bernard Herrmann.


Bernard Herrmann

Bernard Herrmann é considerado um dos maiores compositores de trilha sonora para cinema, especialmente, da música de suspense. Herrmann se destacou pela estrutura de suas músicas, pelo uso dos instrumentos musicais e por seu estilo de composição. O estilo de Bernard Herrmann ditou a maneira como os filmes passaram a ser musicados a partir de sua época.

Ele nasceu no dia 29 de junho de 1911, em Nova York, e começou cedo a estudar música através do violino. O reconhecimento de seu talento veio logo também. Com 13 anos, Herrmann recebeu o primeiro prêmio por uma composição. Talvez isso não seja considerado prodigioso hoje, mas em sua época o tornava digno de muito destaque. Interessado, Herrmann realizou longa pesquisa sobre Charles Ives 1874-1954, músico e compositor graduado pela Yale University em 1898, conhecido por seu estilo musical independente e grande talento. Hermann foi aluno da Juilliard School, e aos 18 anos, conduziu o Ballet Americana, e formou a The New Chamber Orchestra; aos 21, começou a compor para orquestras sinfônicas para programas de rádio. Nos anos seguintes tornou-se regente da Rádio CBS de Nova York, por indicação do amigo Orson Welles. Também através dele, Herrmann compôs sua primeira trilha sonora para o cinema, para o filme Citizen Kane, em 1941. Naquele mesmo ano, Herrmann levou o Oscar de melhor trilha sonora por O diabo e Daniel Webster (The Devil And Daniel Webster). No ano seguinte, recebeu indicação ao prêmio por Citizen Kane.

A maioria das composições daquela época eram feitas para orquestras, com arranjos majestosos,imponentes. Herrmann utilizava instrumentos específicos, melodias curtas e fáceis de serem reconhecidas, arranjos simples. Lembra da cena do banheiro no filme Psicose, de 1960? A trilha para ela foi composta por ele só para cordas.

Bernard Herrmann tinha uma personalidade forte e pouca paciência com as pessoas. Talvez pelo seu grande talento, ele manteve parcerias importantes. Seu nome é muito ligado ao de Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, para quem compôs as trilhas de O Homem que Sabia Demais (1958), desta vez dirigindo uma orquestra; Um Corpo que Cai (1958), para o qual compôs Prelude que pode ser dividido em duas partes: a primeira com violinos, madeiras, vibrafone e harpa, e a segunda, quando surgem as cordas. A primeira parte traz o turbilhão do terror; a segunda é um tema mais romântico.

Mas, não foi só compondo para filmes de suspense que Herrmann se destacou. Seu trabalho em filmes como Simbad e a Princesa (1958), As Viagens de Gulliver (também de 1960), A Ilha Misteriosa (1961) e O Velo de Ouro (1963), em parceria com Ray Harryhausen, mestre em efeitos especiais, que também faz aniversário hoje (91 anos), também fez história.

Por exemplo, O Velo de Ouro, filme épico baseado numa história da mitologia grega, foi gravado quadro a quadro e recebeu uma trilha sonora forte e marcante. Herrmann compôs uma trilha que fortalece a ação do filme, dando intensidade ao impacto da história.

Viagem ao Centro da Terra, de 1959, produzido por Henry Levin, recebeu uma trilha orquestrada majestosa, com destaque para o vibrafone, metais, cinco órgãos e harpas. A sonorização feita por Herrmann vestiu as cenas de dramaticidade e força.

Para Herrman, “as frases musicais curtas são mais fáceis de serem captadas pelo espectador”. Herrmann também lançava mão de acordes não resolvidos e bitonais para aumentar a tensão de suas trilhas, e de estruturas musicais simples para envolver o espectador; Herrmann também explorava timbres e figuras rítmicas para pontuar as cenas. Estes detalhes do trabalho de Herrmann o tornavam complexo no todo, eficiente na narrativa e na densidade psicológica da trama e das personagens.

Bernard Herrnam morreu em 23 de dezembro de 1975, vítima de uma ataque cardíaco fulminante em um quarto de hotel, horas depois de finalizar a gravação da trilha sonora de Táxi Driver, de Martin Scorcese.


Parcerias

Herrmann e Hitchcock

Em 1927, Alfred Hitchcock, contente com o cinema mudo, não gostou da novidade que a Warner Brothers decidiu implantar. Era o tempo de deixar a música e as falas entrarem definitivamente no contexto do cinema. Hitchcock acreditava que nos últimos anos do cinema mudo, cineastas haviam chegado à perfeição em suas produções, e a introdução da técnica sonora comprometeria esta perfeição.

Hitchcock continuou seu trabalho no cinema falado, explorando os efeitos que o som imprimia sobre a imagem e a própria dramaticidade cinematográfica. Ele trabalhou com cerca de 20 compositores em sua carreira, todos músicos de primeira grandeza.

Em 1945, Hitchcock pediu a Herrmann que se entrasse para a equipe que filmaria Quando fala o coração. Herrmann não quis.

Mas ele era o melhor, e em 1955, Hitchcock refez o convite, desta vez, para a prudução de O Terceiro Tiro. A partir dali, a parceria começou a vingar.

Em O Homem que sabia demais, é executada uma música tocada pela Orquestra Sinfônica de Londres, sob a regência de Herrmann durante 9 minutos e quinze segundos, considerada durante muito tempo a sequência musical mais longa do cinema. Em Um Corpo que Cai, o tema musical ressaltou o clima e a sensibilidade de algumas cenas de maneira surpreendente. Os pássaros foi o filme mais desafiador para Herrmann. Não há música, e o trabalho do compositor foi sonorizar a fita, produzindo o ruído dos pássaros que atacavam as pessoas dentro da casa e na rua, e outros sons. Isso em 1963, com recursos tecnológicos rudimentares.

Em Psicose, a união dos dois ficou muito clara. A abertura recebeu uma trilha quase sufocante. Durante todo o filme, a trilha imprime tensão e agonia às cenas em preto e branco, cheias de sombras, envolvendo o espectador. Na cena do chuveiro, os violinos gritam com a vítima enquanto ela é esfaqueada.

A parceria e a amizade de 11 anos (1955-1966), terminaram quando Hitchcock rejeitou a trilha composta por Herrmann para Cortina Rasgada.


Herrmann e Orson Welles

Amigo de Herrmann, era radialista e trabalhava na rádio CBS, em Nova York. Welles era diretor do programa semanal de radionovela com o grupo de teatro Mercury. Na véspera do Halloween de 1938, Welles transmitiu uma adaptação da obra de ficção científica A Guerra dos Mundos, de Hebert George Wells. O objetivo era fazer as pessoas entrarem no clima do halloween. Welles e o grupo Mercury noticiaram que marcianos estavam invadindo a Terra. A representação foi tão convincente que grande parte da população entrou em pânico.

O equívoco começou às 20H00 do dia 30 de Outubro de 1938 com um aviso de que o programa daquele dia era uma encenação. A transmissão durou 1 hora com entrevistas com especialistas, cobertura jornalística da invasão marciana, depoimentos de testemunhas, sonoplastia e músicas que acentuavam o clima de temor.

Cerca de 6 milhões de pessoas ouviram ao programa. Graças à audiência rotativa do rádio, metade não ouviu o aviso inicial. Aproximadamente 1,2 milhão de pessoas acreditou na história; cerca de 500 mil se desesperaram; muitas fugiram de casa, houve congestionamento e sobrecarga de linhas telefônicas.

No final do programa, Welles anunciou a morte dos marcianos e reforçou que tudo era ficção e todos os envolvidos eram atores. O ocorrido gerou muita discussão sobre responsabilidade jornalística. Orson Welles foi processado, mas foi contratado por Hollywood e se tornou um revolucionário das técnicas de filmagem.

Citizen Kane foi o primeiro trabalho em parceria entre Herrmann e Welles. A trilha é tão competente, que rendeu a Hermann uma indicação ao Oscar, e ao filme, o papel de destaque como um dos melhores filmes do cinema em mais de 50 anos.


Herrmann e Ray Harryhausen

Ray Harryhausen nasceu em29 de junho de 1920, sob nome de Raymond Frederick Harryhausen. Ainda hoje, é animador stop motion, uma técnica de animação que fotografa os modelos quadro a quadro. No século XX, Harryhausen era o principal técnico da área na indústria do cinema norte-americano. Seu trabalho é respeitado por diretores como Tim Burton e James Cameron, Steven Spielberg e George Lucas.

Velo de Ouro (1963), foi um dos marcos do cinema de ficção, considerado um filme épico, avançado para a época tanto nos efeitos visuais como na integração som/imagem, resultado da parceria de Harryhausen e Herrmann.

Texto: Chris Gialucca