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11/maio/2011

Há 30 anos, morria Bob Marley. Este era o nome artístico de Robert Nesta Marley, que nasceu em 6 de fevereiro de 1945. Cantor, guitarrista e compositor, este jamaicano é o mais conhecido músico de Reggae. Em suas músicas, Bob Marley falava do problema dos pobres e oprimidos e de sua religião, o Rastafari.

A vida

Em 6 de fevereiro de 1945, o mundo comemorava o fim da Segunda Grande Guerra. Em uma vila no interior da Jamaica de nome Nine Mile, era comemorado o nascimento de um menino a quem foi dado o nome de Robert, Robert Nesta Marley, filho de Cedella Booker, garota negra de 18 anos, e do capitão do Regimento Britânico das Índias Orientais, Norval Marley, branco, 50 anos. Pouco antes do nascimento do menino, seus pais estavam de casamento marcado, mas o pai recuou. Bob Marley recebeu pouca atenção do pai inglês. A família britânica não queria o contato com ele, embora o tenha ajudado financeiramente.

Nos anos 50, sem perspectivas de sobrevivência na vila onde Marley nasceu, após o falecimento de Norval Marley, a mãe se mudou com o filho pequeno para Kingston, a capital do país. Naquela época, a capital era considerada a terra dos sonhos dos habitantes do interior, mas não tinha condições de receber a população que se mudava para lá em busca de emprego e condições dignas de vida. Ao contrário, as pessoas se instalavam em favelas, como a família de Marley. A maior e mais pobre destas favelas era a Trench Town, Cidade do Esgoto. O nome foi dado porque ela foi construída sobre as valas para drenagem do esgoto da parte mais antiga de Kingston. Ali começou a vida de Bob Marley.

O primeiro emprego do garoto foi em uma funilaria, mas ele queria ser músico. Um dia, uma fagulha de solda com a qual trabalhava acertou-lhe o olho. Era o que Marley precisava para largar aquilo e partir para a carreira musical. Bob Marley foi ajudado por um cantor chamado Joe Higgs, artista com certa fama que continuava morando em Trench Town, lecionando canto.

Em 1962, Bob Marley conseguiu apresentar seu trabalho para um empresário, Leslie Kong, que o levou para um estúdio para gravar algumas músicas. Suas composições eram ska, gênero musical que combinava elementos caribenhos (mento, calipso), africanos e norte-americanos (jazz, blues e rhythm and blues). As letras abordavam a marginalidade, a discriminação e a insatisfação com a vida difícil dos trabalhadores jamaicanos. Judge Not foi a primeira lançada.

Em 1963, Marley decidiu montar uma banda, a The Wailer, depois chamada de Wailing Wailer. Um percurcionista rastafari chamado Alvin Patterson gostou do som e a apresentou ao produtor Clement Dodd.

Os Wailing Wailer lançaram o primeiro single Simmer Down no final de 1963. No início de 1964, a música era a mais tocada em toda a Jamaica.

Era outubro de 1966, e pouco tempo depois que o Imperador Hailè Selassiè, líder etíope, passou pelo país, levando força ao movimento rastafari. Marley envolveu-se com a crença, e sua música passou a refletir sua fé.

Na época, as canções de Marley começaram a ser dedicadas às questões espirituais e sociais, falando de igualdade e solidariedade entre os povos. O estilo havia mudado de Ska (mais frenético) para o chamado Rock Steady, mas lento, e depois, para o Reggae. Os novos rumos da banda não agradaram o produtor Coxsone Dodd. Mas a banda acreditava em seu trabalho e criou o selo Wail’N’Soul, que faliu em 1967. A banda sobreviveu por causa de um trabalho com Johnny Nash, cantor norte-americano, que, em 1968, fez muito sucesso com Stir It Up, composição de Marley.

Nessa época, a banda conheceu Lee Perry, produtor que transformou as gravações do grupo. Músicas como Soul Bebel, Duppy Conqueror, 400 years, Small Axe foram marcos na carreira da banda e do próprio reggae.

Em 1971, Marley foi tocar na Suécia com Johnny Nash. Foi então que assinou contrato com a CBS. Em 1972, a banda Wailing Wailer foi para a Inglaterra para promover o single Reggae on Broadway.

A repercussão não foi a esperada, e Marley foi à Island Records conversar com seu fundador, Chris Blackwell, oferecendo 4 mil libras para gravar um álbum com as técnicas de gravação mais avançadas e para que a banda fosse tratada como as bandas de rock eram na época. A Island Records foi a primeira gravadora a prestar atenção à música jamaicana.

Aquela gravação, que resultou no álbum Catch a Fire, foi o começo do reconhecimento internacional. O trabalho causou agitação na imprensa por causa do ritmo e das letras das músicas de Marley.

A banda partiu para uma turnê na Inglaterra, depois para os Estados Unidos, tocando em casas de shows e dividindo palco com artistas como Bruce Springsteen e Sly & The Family Stone, maior representante da música negra norte-americana da época. Em São Francisco, a Rádio KSAN transmitiu uma apresentação ao vivo da banda. A gravação ficou guardada por quase 20 anos e lançada em 1991, no álbum Talkin Blues.

Em 1973, os Wailing Wailer lançaram seu segundo álbum pela Island Records. Burnin incluía novas versões de músicas antigas da banda. Uma das músicas novas do disco, a I Shot The Sheriff foi gravada em 1974 por Eric Clapton e tornou-se o single mais vendido dos Estados Unidos naquele ano.

1974 também foi o ano em que Marley passou muitas horas em estúdio, que resultaram no álbum Natty Dread. Nele estavam Talkin Blues, No Woman No Cry, So Jah Seh, Revolution, Rebel Music, entre outras.

Outra turnê pela Europa e, voltando para a Jamaica, Bob Marley se apresentou ao lado de Stevie Wonder. Marley havia se tornado a maior estrela da música jamaicana.

Em 1976, foi lançado Rastaman Vibrations, considerado a melhor mostra do trabalho e das crenças de Bob Marley. O álbum atingiu rapidamente o topo das paradas nos Estados Unidos, e trazia War, uma canção cuja letra fora tirada de um discurso do Imperador Hailè Selassiè na ONU.

Na Jamaica, Bob Marley se tornava importante como artista e como figura política também. A fé rastafari crescia entre os jovens e ressoava nos guetos das cidades. Marley marcou um show para 5 de dezembro de 1976, aberto ao público, no Parque dos Heróis Nacionais de Kingston. Marley queria falar de paz nas ruas das cidades jamaicanas, palco de constantes lutas entre gangues e mortes. Embarcando na iniciativa de Bob Marley, o governo jamaicano convocou eleições para o dia 20 de dezembro daquele ano. As guerras se intensificaram. Atiradores invadiram a casa de Bob Marley e atiraram nele. Ele foi levado para um refúgio nas montanhas no entorno de Kingston, e mesmo se recuperando do ferimento, fez um show rápido no dia marcado, como que para desafiar os atiradores. Depois do show, Marley se mudou para a Inglaterra, onde gravou o álbum Exodus, e só voltaria a se apresentar na Jamaica 8 meses depois. Na Inglaterra, foi preso por porte de maconha.

O álbum chegou rapidamente ao auge do sucesso no ranking inglês, e ali ficou por 56 semanas. Os singles Waiting In Vain, Exodus e Jammin tiveram vendagens surpreendentes.

Em junho de 1977, Marley percebeu uma ferida em seu pé direito. A princípio pensou que tivesse ocorrido em alguma partida de futebol. Mas o ferimento não fechou, e se agravou, levando à queda de uma das unhas dos dedos do pé. Marley consultou um médico, e foi diagnosticado com um tipo de câncer de pele. Os médicos o aconselharam a amputar o pé. Ele se recusou. A amputação feria os princípios do Rastafari. Marley também estava preocupado com a repercussão da cirurgia no público e com a alteração de sua mobilidade e caminhada. Foi feita uma cirurgia para remoção das células doentes, e o pé foi mantido.

1978 foi um ano especial para Bob Marley. O álbum Kaya chegou ao 4° lugar das paradas inglesas na semana de lançamento; este trabalho trazia canções de amor e uma homenagem a ganja (maconha). Em abril daquele ano, Marley voltou à Jamaica para realizar o One Love Peace Concert. No show, Marley fez com que o primeiro ministro jamaicano e o líder da oposição apertassem as mãos. Bob Marley foi convidado para ir à sede da ONU e recebeu a Medalha da Paz.

No final daquele ano, Bob Marley viajou para a África e conheceu o Kenya e a Etiópia, berços do Rastafari. Da visita surgiu o novo álbum com canções como Zimbabwe, So Much Trouble In The Word, África Unite, entre outras. Na capa do disco, chamado Survival, estavam estampadas as bandeiras dos países africanos independentes; ele é uma homenagem à solidariedade Panafricana.

Em abril de 1980, a banda foi convidada pelo governo do Zimbabwe para tocar na cerimônia de independência da nação recém liberta. Foi a maior honra oferecida para os integrantes, e expôs a importância da banda no Terceiro Mundo.

Bob Marley também foi premiado com a Ordem ao Mérito Jamaicana.

A doença se espalhara para cérebro, pulmões e estômago. Naquele ano, Bob Marley havia feito uma turnê na Inglaterra, e quando fazia uma apresentação no Madison Square Garden, em Nova Iorque, desmaiou. A doença o impediria de continuar as apresentações agendadas para os Estados Unidos. Marley foi para Munique tentar um tratamento com um médico local. Depois de vários meses, a doença havia progredido.

Voltando da Alemanha para casa, Bob Marley sentiu-se mal no avião e desembarcou em Miami. Ele foi internado no Cedars of Lebanon Hospital, e faleceu em 11 de maio de 1981, aos 36 anos. Na Jamaica, seu funeral teve honras de chefe de estado, numa cerimônia que misturou elementos da Igreja Ortodoxa e do Rastafari. Ele foi enterrado em Nina Miles, sua vila natal, e, segundo se conta, estavam com ele sua guitarra, uma bola de futebol, um cigarro de maconha e uma Bíblia.


Mãe África, Rastafari, Jamaica e Bob Marley


A vida de Bob Marley reflete a realidade política e religiosa de seu país. A escravatura foi abolida na Jamaica em 1834, mas o sofrimento dos africanos, misturado aos costumes dos colonizadores ingleses, ainda estava na mente e na cultura dos jamaicanos.

No início do século XX, um jovem chamado Marcus Garvey, negro, de família culta e incentivadora, que costumava discutir política e situações da sociedade jamaicana, passou por uma experiência que marcaria sua vida. Sua família morava ao lado da casa de uma família de brancos. Garvey tinha amizade com uma menina de sua idade que, aos 14 anos, foi enviada para a Inglaterra. A menina foi proibida de relacionar-se por carta com o “nigger” (expressão preconceituosa e depreciativa usada contra os negros em países de língua inglesa). Garvey percebeu quão profundo era o preconceito racial em seu país.

Marcus Garvey foi morar na capital da Jamaica, Kingston, que sofreria um grande terremoto poucos anos depois. O acidente resultou em mais miséria numa sociedade já caracterizada pela pobreza. Garvey trabalhava como tipógrafo e era bom no que fazia. Insatisfeitos com os salários, os funcionários da empresa para qual ele trabalhava entraram em greve. Garvey participou ativamente do movimento, que fracassou; ele perdeu o emprego e entrou para a lista negra das empresas de tipografia da cidade.

Garvey ingressou num clube de jornalistas políticos e também se tornou pregador. Tempos depois, ele fundou a Associação Universal para o Desenvolvimento do Negro, que defendia a criação de um país negro na África, liberto da influência branca, que pudesse receber de volta os descendentes dos negros exportados do continente africano para servirem como escravos.

Em suas pregações, Garvey repetia que um messias viria da África, que surgiria como o Rei Negro, 225° descendente da linhagem Menelik, filho do Rei Salomão e da Rainha Sabá, personagens bíblicos, que libertaria os negros da tirania branca. Em 1930, Ras Tafari Makonnen foi coroado imperador da Etiópia e passou a chamar-se Hailè Selassiè.

Os seguidores de Garvey passaram a acreditar que aquele era o messias prometido e o chamavam de Jah ou Jah Rastafari. Deu-se início à religião Rastafari, cujo maior divulgador foi Bob Marley.


Rastafari, Marley e Ganja


Para a religião rastafari, nada que vem da natureza faz mal. Alguns tipos de carnes são desaconselhados. Por isso, muitos dos seguidores se tornam vegetarianos. Para eles, a melhor comida é a erva, alimentos poucos cozidos, sem sal, nem condimentos, nem conservantes, etc. A religião também recomenda os chás.

A maconha (ganja, como é conhecida pelos rastafaris) é recomendada para limpeza e purificação em rituais controlados. Para muitos é o “fumo da sabedoria”, e seu uso acabou secularizado. Marley era um defensor do uso espiritual da maconha. Segundo ele, o uso proporcionava a comunhão. Ele não escondia que era usuário frequente da erva, e cantava-a em suas composições

Texto: Chris Gialucca