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09/junho/2011

Mildred Wolf, a última pianista viva que acompanhou os filmes do cinema mudo morreu no último domingo em sua casa, em Los Angeles, Califórnia, de causas naturais, um dia depois de completar 101 anos de idade.

A pianista nasceu em Minneapolis, sob o nome de Mildred Weisberg em 28 de maio de 1910, e estudou orgão para cinema com Lawrence Morton, arranjador e compositor de trilhas para o cinema mudo nos anos 50.

Em 1926, Mildred acompanhou filmes do cinema mudo no Wurlitzer Theater Organ. Sua carreira não foi longa. Logo, ela se aposentou.

A imagem, os sons e a música

Os filmes nasceram mudos. Mas a falta de comunicação verbal logo revelou-se problemática. No começo, recorreu-se às legendas, aos movimentos de câmera, enquadramentos. Todos estes recursos se tornariam fundamentos da linguagem da produção cinematográfica.

Mas, ainda sim, não era suficiente. Logo, introduziu-se a música como acompanhamento ao vivo. Profissionais, como Mildred Wolf, tocavam piano ou órgão, enquanto o filme era apresentado nas salas de exibição. Desta maneira, era criada a ambientação sonora.

Na época, técnicos e cineastas experimentaram a sonoplastia ao vivo (Imagine o som de trovão feito com placas de metal ali, ao lado do espectador), o diálogo entre atores realizado no cantinho da sala de exibição… Mas nada deu o resultado esperado.

Para alguns estudiosos, a música foi incorporada para reduzir o peso do ruído dos projetores nas salas. Inicialmente, os projetores ficavam na própria sala de exibição, e seu ruído era muito alto e incômodo. Mais tarde, foram criadas as técnicas, salinhas para isolar os projetores.

Para outros, a sala era um lugar meio estranho para o espectador: escura, onde as pessoas ficavam todas sentadas em fileiras, voltadas para uma cena inexistente. Era como assistir a um show de fantasmas. A música viria a quebrar esta situação, até certo ponto, tenebrosa. Imagine a diferença entre uma sala de exibição de cinema e uma de teatro nos anos de 1920. Claras, orquestradas, coloridas, sofisticadas, as salas de teatros eram completas!

Estudos mais recentes incluem outras razões para a necessidade da música nos filmes mudos: um seria a ambientação histórica; outro, ambientação estética; mais um, razões psicológicas; e por último, razões pragmáticas (práticas, mesmo: encobrir o ruído do projetor, por exemplo).

Mas parece que a música foi incorporada nas exibições dos filmes para intensificar a impressão de realidade, criando uma profundidade visual envolvente para o que era projetado na superfície fria à frente do público, simular uma atmosfera mais real à cena representada e intensificar a sensação de movimento. Neste aspecto, hoje, sabe-se que a música confere movimento às cenas de um filme. Mas estamos falando dos primórdios da produção cinematográfica e de tudo isso dentro de uma sala escura e fria.

No cinema mudo, a música foi fundamental. Ela influenciou a linguagem cinematográfica inicial, alterou a percepção da imagem cinematográfica. Como já foi dito: “o cinema nasceu sem fala, mas, com certeza, nasceu musical”.

A História

A primeira exibição de um filme comercial ocorreu no Grand Café do Boulevard dês Capucines, em 28 de dezembro de 1895. Lá estava o piano tocando acompanhando o filme, que foi promovida pelos irmãos Lumiere. Em 1896, várias exibições ocorreram em Londres já com acompanhamento de orquestras. Parece que não havia muita preocupação com o enredo do filme, por isso, não se pode chamar estes acompanhamentos musicais de trilhas sonoras, nas quais a música coopera com as imagens para a narrativa.

O acompanhamento musical, na época do cinema mudo, não tinha relação com a mudança de cenas, nem com sincronismo com a imagem. Este advento só foi possível depois do estabelecimento da relação precisa imagem/som.

A música que acompanhava a exibição dos filmes mudos também era sujeita à imprecisão das apresentações ao vivo. Ainda que a composição fosse precisa, a execução não o era!

O tipo de música de acompanhamento dos filmes variava bastante. Enquanto nas grandes e sofisticadas salas de exibição das grandes cidades tinham acompanhamento mais elaborado, nas salas mais humildes das cidades menores o acompanhamento musical era feito com recursos simples. A diferença entre as exibições também ocorria entre a relação música e conteúdo da imagem. Por isso, o mesmo filme exibido em salas diferentes tinham um acompanhamento musical completamente distintos.

Geralmente, as músicas tocadas eram parte do repertório tradicional da região onde o filme era exibido. Quem escolhia o repertório era o músico responsável pela sala, às vezes, um único músico, um organista, como Mildred Wolf. Ainda nesta época, alguns músicos tentavam alguma forma de sincronismo, mas sem grandes resultados.

Os filmes tinham duração pequena. Por isso, muitas vezes, não eram necessárias muitas canções para “cobrir” toda a história.

Naquela época, as improvisações eram comuns. As improvisações eram usadas nas transições entre uma música e outra e para preencher as lacunas entre o filme e o acompanhamento musical.

Mais tarde, o músico responsável pela sala de exibição começou a ver antecipadamente a película e a selecionar trechos mais curtos que mudavam de acordo com a cena do filme. Ainda era a época do cinema mudo, mas a relação música/imagem já começava a ser mais íntima. Mais tarde, essa mudança de comportamento despertou interesse aos produtores de cinema.

Alguns editores musicais passaram a publicar coletâneas musicais para o acompanhamento de alguns filmes. As coletâneas eram catalogadas pela dramaticidade do filme. A seleção musical adequava-se a um tipo específico de cena: mistério, catástrofe, romantismo, terror… Algumas destas músicas eram adaptadas; outras, eram compostas.

Em 1908, o compositor francês Camille Saint-Saëns compõs Lê Film d’Art para L’Assassinat du Duc de Guise, a primeira partitura original. Em 1909, a Edison Film Company distribuiu a primeira película com sugestão de acompanhamento musical. O filme já vinha com a seleção musical escolhida pelos produtores.

A presença dos músicos acompanhando os filmes dava à exibição das películas uma aparência ainda muito semelhante à do teatro. Embora o filme pudesse ser exibido seguidamente, como acontece hoje, o acompanhamento não funcionava assim. Existiam as sessões de cinema. A exibição mantinha um caráter artesanal.

Os músicos continuaram a acompanhar as sessões de cinema até meados da década de 1930, quando surgiram os primeiros recursos de gravação.

Texto: Chris Gialucca